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A Palavra
(Ordet)
Carl Theodor Dreyer
Dinamarca, 1955, 125 min, 35 mm para DCP

 
Em 1925, Morten Borgen (Henrik Malberg), devoto patriarca de uma família de fazendeiros no interior da Dinamarca, vive atormentado pela doença mental de Johannes (Preben Lerdorff Rye), um de seus filhos, que, após intenso estudo sobre a obra do teólogo Søren Kierkegaard, passa a espalhar a palavra de Deus, como uma encarnação de Jesus Cristo. Enquanto isso, o filho caçula de Morten apaixona-se pela filha do alfaiate e pastor da cidade, que prega uma fé dura que vai contra a "felicidade cristã" da família. Os conflitos são agravados quando Inger (Birgitte Federspiel), nora de Morten, que está para dar à luz ao terceiro filho com o agnóstico primogênito Mikkel (Emil Hass Christensen), sofre de complicações durante o parto e falece junto com o recém-nascido.
 
Este drama familiar, adaptado de uma peça de 1925 do teatrólogo e pastor luterano Kaj Munk, contrapõe fé e cristianismo, expondo a hipocrisia da religião institucionalizada. O penúltimo longa do canônico cineasta dinamarquês Carl Theodor Dreyer - de A paixão de Joana D'Arc (1928) e Dias de ira (1943), entre outros - foi uma preparação para um ambicioso projeto de filmar a vida de Jesus Cristo, que não conseguiu levar adiante por falta de financiamento. Atualmente, é considerado uma obra-prima de concisão narrativa, na qual suaves movimentos de câmera e diálogos sucintos trabalham com elegância para levar ao espectador uma visão clara do lugar da fé no mundo moderno.
 
A Palavra será projetado em uma nova cópia em DCP da restauração digital feita pelo Danske Film institut (Instituto Dinamarquês de Cinema), lançada no Festival de Berlim este ano. Será exibida pela primeira vez no Brasil no IMS.
 

 
“Agora a vida vai começar”
 
O texto a seguir é a introdução de Dreyer para os atores de A Palavra. Ele faz parte do livro do recém-falecido crítico Jan Wahl, Carl Theodor Dreyer and Ordet: My Summer with the Danish Filmmaker, de 2012, e foi traduzido do inglês para o português com o consentimento da editora The University Press of Kentucky. Agradecemos a Mack McCormick.
 
É importante no filme baseado na peça A Palavra, que a mentalidade do espectador, desde o início, seja receptiva ao grande milagre: o despertar da personagem Inger. A transição abrupta do natural para o supernatural tem de ser preparada de uma maneira muito mais cuidadosa no filme do que na peça. Isso só pode ser feito aproximando a família em Borgensgaard do espectador – antes da história verdadeira começar, quer dizer, a narrativa da peça – para que ele conheça a atitude de cada integrante da família em relação aos outros membros e como cada pessoa entende o problema central da peça: A Cristandade e a Fé. O filme também deve, desde o início, transmitir para o espectador o fardo psíquico que a família vive na fazenda devido a doença mental de um dos filhos, Johannes.
 
Para cumprir este propósito eu achei essencial construir uma cena de abertura que é em grande parte fabricação minha, mas espero que as pessoas acreditem que ela se harmoniza com a atmosfera da peça de Kaj Munk. Fora isso, eu adaptei a peça de Munk com fidelidade, mas tentei simplificar os diálogos, pois deve ser lembrado que o cinema, de acordo com sua forma – ao contrário do teatro –, requer da fala mais simplicidade e facilidade de compreensão, para que ela possa ser apreendida de imediato e sem especulação. Também tenho trabalhado com o pressuposto de que o próprio Kaj Munk preferiria uma narrativa cinematográfica, ao invés de teatro filmado.
 
Em relação a Johannes, a peça mostra uma variedade de síndromes, quer dizer, um grupo de sintomas característicos para vários tipos de doenças mentais, o que também é muito comum. Diagnósticos de doenças mentais quase nunca mostram tipos puros de síndromes. É claro que Johannes sofre delírios de grandeza, pois ele acredita que é Jesus Cristo. Ele tem alucinações e ouve vozes. Quando interage com outras pessoas, é ao mesmo tempo aberto e reservado. Seu comportamento é mais frequentemente caracterizado por dignidade e sublimidade. Sua fala é respeitada, com uma sutil indicação de pregação, cheia de trechos das Escrituras e frases religiosas, e suas respostas são ao mesmo tempo lógicas e coerentes, ao menos quando visto de maneira superficial. Como foi dito antes, ele sofre de alucinações, mas de uma maneira muito quieta, e por isso é possível mantê-lo na fazenda.
 
Suas roupas são soltas, desgastadas e desbotadas.
 
Um psiquiatra provavelmente caracterizaria a doença com os termos “megalomania”, “depressão” e “melancolia”, e acreditaria que ela teria sido provocada por religiosidade excessiva somada a um excesso de trabalho devido aos estudos teológicos que, juntos, causaram uma crise religiosa. É possível que Johannes tenha fugido e se escondido por de trás da doença, em parte como um protesto contra os estudos que foram parcialmente impostos a ele, e, em parte, por medo de não ser capaz de cumprir as expectativas de seu pai.
 
Para explicar a doença de Johannes não é preciso contar a história sobre seu caso romântico e a morte violenta de sua noiva. Mesmo que fosse necessário incluir esta história, ela teria de ser contada em imagens, o que significaria um fardo desnecessariamente pesado, e ela arruinaria a unidade de espaço e (aproximadamente) tempo, que dá à narrativa uma harmonia e força que precisam ser preservadas a qualquer custo no filme.
 
O propósito do filme é fazer o espectador tacitamente aceitar a ideia do autor – tal como é experienciado na parte final – quer dizer, aquele que tem força suficiente em sua fé também possui o poder de fazer milagres.
 
O espectador tem de ser preparado para isso de maneira lenta; eles têm de entrar em um clima religioso, precisam estar envolvidos em uma atmosfera de misticismo religioso. Para fazer os espectadores receptivos ao milagre eles devem ser levados para um clima especial de tristeza, assim como em um funeral.
 
Ao entrar neste estado de medo e contemplação, o espectador ficará mais facilmente sujeito à crer na sugestão do milagre, pelo simples motivo de que eles – ao serem obrigados a pensar na Morte – chegariam a pensar em sua própria morte, e por isso (sem saber disso), esperar pelo milagre e assim eliminar sua atitude normal de ceticismo.
 
O espectador deve esquecer que está assistindo a um filme e ficar em um estado de sujeição à sugestão, ou se preferir, de hipnose, para acreditar que testemunham um ato divino, para que saiam calados e comovidos.
 

 
MUTUAL FILMS