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As transformações de Utako Koguchi
Programa 1 Utako Koguchi em 8 mm (3 filmes, 80min) A chuva Ame Utako Koguchi | Japão | 1981, 23’, 8 mm para DCP (Acervo da cineasta) + O lar do Dr. Axolote Ahorotoru Uparupa no sumika Utako Koguchi | Japão | 1987, 10’, 8 mm para DCP (Acervo da cineasta) + Diário de O-DE-KA-KE 1 Koguchi Utako no ODEKAKE nikki Utako Koguchi | Japão | 1989, 47’, 8 mm para 16 mm para DCP (Acervo da cineasta) O programa apresenta três filmes que foram realizados por Utako Koguchi em 8 mm ao longo dos anos 1980. Eles têm como temas a linha tênue entre realidade e fantasia e a comunhão entre o ser humano e a Natureza. Os filmes, traduzidos do japonês pela primeira vez, passarão em novas cópias digitais em alta-resolução que foram confeccionadas pela cineasta neste ano. O filme de estreia de Koguchi, A chuva, foi feito quando ela era uma aluna na Universidade de Waseda, em Tóquio, e segue uma adolescente que pratica rituais mágicos dentro de casa durante uma tempestade, ao som da “Dança da Fada Açucarada”, de Tchaikovski. Ele passou no Festival Pia de Cinema, um evento importante para o cinema independente e experimental no Japão, e assim colocou sua diretora entre as artistas cinematográficas japonesas mais interessantes da sua geração. Koguchi relembra: “Durante meus anos de universidade, impulsionada por um forte desejo de me expressar, explorei diversos meios artísticos: poesia, romances, música, composição, performance corporal, mangá e cinema. Foi nessa época que fiquei fascinada pelo Surrealismo. Eu queria criar uma obra na qual imagens exageradas, fragmentárias e oníricas costurassem uma noção de tempo, mantendo, ao mesmo tempo, uma sensação subjacente de inquietude. Embora a protagonista do filme não se baseie em nenhuma pessoa específica, ela reflete meus próprios sentimentos daquela época, inclusive, um desconforto com a personalidade feminina estereotipada e banal que eu me sentia compelida a representar no dia a dia.” O virtuoso curta-metragem O lar do Dr. Axolote, feito seis anos depois, toma como fio condutor uma jornada pelas águas de Tóquio, com a câmera na mão adotando a perspectiva de uma protagonista misteriosa. Aos poucos, ouvimos o texto de uma carta amorosa, sensual e escatológica escrita pela mulher Tsuruya Kame para o estranho doutor do título, que busca uma mariposa em terras estrangeiras enquanto sua amada o persegue. Koguchi comenta: “O nome do axolote deriva de Xolotl, uma criatura da mitologia. Trata-se de um ser capaz de se regenerar enquanto permanece em sua forma juvenil. É um anfíbio, mas vive quase inteiramente na água e, aparentemente, existem casos raros de indivíduos que sofrem metamorfose para a fase adulta e saem para a terra firme. Sempre me interessei muito por criaturas que, embora possuam sexos masculino e feminino, mantêm sua forma larval mesmo após atingirem a maturidade sexual. Em comparação com os humanos — que crescem e vivem limitados e à mercê do sexo designado —, a existência de criaturas que permanecem eternamente infantis, adoráveis e livres parece algo corajoso e inspirador.” Algumas cenas de O lar do Dr. Axolote reaparecem no média-metragem Diário de O-DE-KA-KE 1, que Koguchi filmou ao longo de um ano em 8 mm e depois ampliou para 16 mm. O híbrido de documentário e ficção ganhou o prêmio principal no Festival Image Forum (outro showcase importante para o cinema independente japonês) e teve várias exibições no exterior ao longo dos anos seguintes. A trama episódica de Diário de O-DE-KA-KE 1 (cujo título contém uma palavra japonesa para o ato de explorar ou viajar) acompanha uma jovem mulher desabrigada enquanto explora as ruas de Tóquio no verão e eventualmente se desloca até as montanhas. Quando ela morre, sua alma volta para a cidade e tenta levar o corpo consigo para a casa da família num gesto de ressurreição. A própria Koguchi filmou algumas cenas, mas principalmente se deixou ser filmada por diversos colaboradores. Ela comenta: “A mulher que atua no filme sou eu. Eu fiz o filme para me alegrar, e para dar a mim mesma uma prova de que eu estou viva.”
Programa 2: Utako Koguchi em 16 mm (4 filmes, 82min) Mãos metafóricas Anyu no Te Shirouyasu Suzuki | Japão | 1990, 14’, 16 mm para DCP (Nonoho Suzuki) + Um dente-de-leão, Rosaceae Baraka Tanpopo Utako Koguchi | Japão | 1990, 9’, 16 mm para DCP (Acervo da cineasta) + A flor adormecida Nemuru Hana Utako Koguchi | Japão | 1991, 7’, 16 mm para DCP (Acervo da cineasta) + Diário de O-DE-KA-KE 2 Zoku ODEKAKE nikki~dai 2 shou~ Kusa no Ie Utako Koguchi | Japão | 1993, 52’, 16 mm para DCP (Acervo da cineasta) O programa apresenta três filmes experimentais que foram realizados por Utako Koguchi em 16 mm durante os anos 1990, período durante o qual a artista japonesa também trabalhou muito com o vídeo analógico. O curta-metragem caricato Um dente-de-leão, Rosaceae, filmado em stop-motion, tem como protagonistas as irmãs gêmeas Lulu e Lala, que são interpretadas por bonecas até eventualmente se transformarem na figura da própria cineasta. Ao assistir na madrugada a um filme sobre homens bonitos, Lala, por acidente, vê seu pai aparecer nele. O choque da cena a leva a repentinamente se transformar em um menino. Ela vai ao encontro da irmã para exibir seu pênis e se dá conta de que Lulu também passou pela mesma transformação. As duas então entram em um combate feroz por dominação. Koguchi comenta: “a produção de Um dente-de-leão, Rosaceae foi um processo contínuo de tentativa e erro, razão pela qual a espontaneidade era fundamental. Enquanto a animação convencional exige um trabalho minucioso e detalhista, priorizamos a velocidade e o realismo para expressar o improviso e sensações intuitivas em tempo real. Essa aspereza que desafia a lógica eventualmente gera um efeito cômico.” O curta-metragem documental A flor adormecida também se concentra na relação bem-humorada entre duas parentes femininas, desta vez, a diretora e sua avó, Ume Koguchi, cujas preparações para a morte são desenvolvidas ao longo de uma série de cenas teatralizadas. A montagem impressionista das imagens é conectada pelo som de uma conversa entre as duas mulheres sobre a própria existência. Segundo a diretora, “realiza-se o funeral fictício da avó, que um dia morrerá. Ela é sepultada em meio a flores de papel branco, de olhos fechados, embora ainda esteja viva. No entanto, o semblante adormecido que ela exibe no cotidiano é a própria imagem da morte. Uma conversa entre três mulheres de gerações diferentes — neta, avó e mãe — evolui de um teor trivial para o tema sério da morte, tratado em sussurros.” O média-metragem Diário de O-DE-KA-KE 2 continua a narrativa do primeiro filme da sequência O-DE-KA-KE ao focar em uma jovem mulher em Tóquio (novamente interpretada pela diretora) cuja alma sai de seu corpo e vai em busca de um ex-amante, antes de voltar para a casa da mãe. Enquanto Diário de O-DE-KA-KE 1 se passa principalmente durante dias de verão, o segundo filme se passa na maior parte à noite durante o fim do ano. A cineasta comenta: “acredito que o motivo pelo qual decidi fazer um segundo filme foi simplesmente o fato de que a alma daquela mulher queria deixar o corpo e sair para mais um ‘passeio’. Na época, eu trabalhava na Universidade de Arte de Tama, em Tóquio. O professor Shigeo Hiyama — que havia adquirido uma câmera portátil AATON 16 mm para suas pesquisas — gentilmente me emprestou, e eu estava cercada por alunos e professores que ajudaram nas filmagens e na pós-produção. Assim como em Diário de O-DE-KA-KE 1, tudo o que eu precisava era me colocar como protagonista para realizar o ‘passeio’, as pessoas queridas que iam participar comigo, um pouco de equipamento e uma quantia modesta de dinheiro.” O programa também inclui um filme dirigido pelo poeta, cineasta e professor na mesma Universidade, Shirouyasu Suzuki, que operou a câmera em Um dente-de-leão, Rosaceae e ensinou Koguchi como usar a câmera Bolex 16 mm. O filme Mãos metafóricas (filmado parcialmente por Koguchi no mesmo ano de Um dente-de-leão, Rosaceae) segue o estilo pessoal de boa parte da obra do diretor ao focar na potência das mãos durante uma noite silenciosa em casa, através de uma série de imagens que mostram seus diversos usos. Suzuki (falecido em 2022) escreveu sobre seu filme: “embora cada pessoa leve uma vida diferente, senti que as mãos eram uma metáfora para a vida em geral. Em outras palavras: pensei que a vida de uma pessoa é determinada pelo que ela segura nas mãos. Eu seguro uma caneta-tinteiro e carrego película na câmera com as mãos, e isso reflete a minha vida. Criei o filme com base nessa ideia – embora, hoje em dia, tudo seja feito com teclado e mouse, e as ‘mãos’ tenham sido substituídas por um cursor na tela.” Agradecimentos da sessão: Aaron Gerow, Cici Peng, Haruka Hama (Festival Internacional de Documentários de Yamagata), Lisabona Rahman, Nonoho Suzuki, Seiko Ono, Tetsuya Meruyama, Utako Koguchi, Ute Aurand, Wakae Nakane Minibio da escritora convidada / Minibio of the guest writer: PT: Wakae Nakane é pesquisadora de pós-doutorado com atuação na área de Estudos de Mídia na Escola de Artes Cinematográficas na Universidade da Califórnia (Berkeley). Sua pesquisa concentra-se em cinema documental e experimental, cultura cinematográfica japonesa do pós-guerra, historiografia feminista do cinema e o modo ensaístico nas mídias de não ficção japonesas. Ela publicou trabalhos tanto em inglês quanto em japonês, incluindo contribuições aos livros Women and Global Documentary (2025) e Female Authorship and the Documentary Image (2018). Também tem participado ativamente das comunidades de cinema experimental e independente do Japão por meio de organizações como o Festival Pia de Cinema, o Image Forum e o Festival Internacional de Documentários em Yamagata, além de ter feito a curadoria de programas de exibição sobre autoria feminina para instituições como o Pacific Film Archive (EUA) e o Image Forum (Japão). EN: Wakae Nakane is a Postdoctoral Teaching Fellow in Media Studies at the USC School of Cinematic Arts. Her research focuses on documentary and experimental cinema, postwar Japanese film culture, feminist film historiography, and the essayistic mode in Japanese nonfiction media. She has published in both English and Japanese, including contributions to Women and Global Documentary (Bloomsbury, 2025) and Female Authorship and the Documentary Image (Edinburgh University Press, 2018). She has also been actively involved in Japan’s experimental and independent film communities through organizations including Pia Film Festival, Image Forum, and Yamagata International Documentary Film Festival, and has curated screening programs on female authorship for institutions such as the Pacific Film Archive and Image Forum. |
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