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“Uma lembrança de Jonas Mekas com sua Bolex”
 
O texto a seguir foi escrito por Utako Koguchi em 2019, ano da morte do cineasta lituano-norte-americano Jonas Mekas (1922-2019). Ele foi originalmente publicado em japonês e em inglês para acompanhar a edição de 2019 do Festival Internacional de Cinema de Yamagata, no Japão: YIDFF Reader 2019 SPUTNIK (pdf) . Agradecimentos vão à programadora Haruka Hama e à equipe do festival por autorizar a publicação online desta tradução para o português, realizada por Rafael Moretzsohn Finardi, , um fotógrafo, cineclubista e pesquisador da obra de Mekas. O tradutor comenta:
 
“Quando tentamos descrever aquilo que nossos olhos veem, em geral buscamos uma descrição concreta do que está à nossa volta, atentos aos detalhes que garantem um contexto prático ao nosso campo de visão. Uma cadeira, uma mesa, um copo, um lápis, talvez um abajur ou uma pessoa.
 
Quando penso em Jonas Mekas, porém, vejo o contrário. Embora sua extensa obra de diários filmados esteja quase sempre voltada justamente para esses objetos, para o cotidiano material e para a realidade não ficcionada, o efeito é inverso: é no mais banal que ele alcança o que há de mais subjetivo na memória, quase acompanhando o piscar dos olhos.
 
É como se Mekas se vestisse do real para chegar ao que o real não diz: o lacunar, o intervalo, os espaços entre os ‘fatos’ da vida de alguém, apostando na potência desses vazios. Em suas palavras: ‘Mostre, mas não conte’.
 
Contudo, não é um filme de Mekas que veremos (ou que sobre leremos) aqui, e sim um filme da artista japonesa Utako Koguchi, que nunca quis fazer simplesmente um documentário sobre a passagem dele pelo Japão, em 1991. Vemos, talvez, o exercício de dois artistas que compartilham a mesma intuição: a de que a câmera existe, muitas vezes, para aprofundar os vazios entre a experiência e o movimento da vida. O texto traduzido aqui é parte desse mesmo exercício.”

 

No verão de 1991, eu fui convidada pelo Sr. Shirouyasu Suzuki, um artista visual, poeta e membro do grupo conhecido como “os Diaristas Mekesianos do Japão”, para filmar a visita de Jonas Mekas ao país. Levou bastante tempo para que eu conseguisse reduzir o material bruto que, no total, tinha 30 horas de duração. O resultado foi o vídeo Jonas Mekas 1991 Summer: NY, Obihiro, Yamagata, Shinjuku, Lithuania (1991), que teria apenas 90 minutos. O vídeo mostra como Mekas filmou, em 16 mm com uma Bolex, as imagens das cidades de Obihiro e Yamagata para o filme On My Way to Fujiyama, I Saw… (1996)
 
Quando surgiu no aeroporto, Mekas cumprimentou diretamente minha câmera VHS, dirigindo a ela a seguinte frase: “Mostre, mas não conte”. E assim, sem nenhuma introdução, iniciou o nosso diálogo através da objetiva da câmera. Eu queria filmá-lo da forma mais discreta possível, mas, toda vez que ele olhava para a lente gigante da minha VHS e me dizia algo por gestos, acenando de longe ou quando erguia um brinde em minha direção, era como se seguisse regras não ditas, um código só seu. Desde que Mekas conseguiu sua Bolex em Nova York, uma terra estrangeira, aos 28 anos, o cinema se tornou sua segunda língua e, com a câmera, ele compunha poemas; portanto, conversar através de uma lente, por esses códigos, nunca foi um problema.
 
Durante sua passagem pelo Japão, nós acompanhamos todos os dias as notícias do recente colapso da União Soviética e, com isso, a mudança do cenário político agora rumo à reconquista da independência da terra natal do Mekas, a Lituânia. Nas entrevistas, exibições e debates que decorreram ao longo dos dias, ele dizia repetidamente que “O Paraíso ainda não foi perdido” e que os lituanos teriam meios para preservar seu pequeno país, com sua cultura e sua língua, um paraíso que jamais deveria ser perdido no mundo. Sob tais condições, o que ele filmou no Japão?
 
Durante a viagem, ele sempre tinha consigo sua Bolex. Ele apontava a câmera para os objetos que estavam em seu entorno e também para os seus amigos; se integrava com os sons do equipamento, quase como se estivesse dançando ou cantando. Sem mesmo olhar no visor, filmava e, com um pequeno gravador de som colocado no bolso do casaco, gravava os sons da natureza: a chuva, as cachoeiras, nascentes, o chão e as plantas à beira do caminho. Sua profunda sensibilidade à natureza era atravessada por seus pensamentos, que se voltavam para a distante Lituânia.
 
Embora eu já fosse familiarizada, graças ao Mestre Shirouyasu, com a forma como funcionava uma Bolex de 16 mm com motor de corda, foi revigorante ver de perto o estilo único de filmagem de Mekas: o stop-motion, o motion blur e como livremente em cada movimento ele alterava o número de frames por segundo e ajustava o diafragma conforme sua necessidade. A lente e a película eram parte do seu corpo e, portanto, o ato de filmar era seu movimento a partir dos nervos. Em dado momento, quando ele começou a trocar os rolos de película sobre o capô do carro e a manivela da sua câmera começou a girar, encostando na lataria, produzindo um som oco, senti meu coração subir para a boca. Apreciei muito o fato de Mekas usar um modelo de filme reversível (cromo) e não um rolo de filme negativo. Isso produzia uma imagem positiva diretamente na câmera.
 
Apesar de uma bobina de 100 pés possibilitar filmar apenas cerca de 3 minutos em velocidade regular (24 quadros por segundo), ela consegue registrar diferentes dias, ou momentos de informação quando feita a partir dessa filmagem fragmentária, em stop-motion. Na projeção, esse tempo filmado passa efemeramente, como em um piscar de olhos.
 
Nos últimos dois dias da sua viagem pelo Japão, decidi filmar Mekas e seu grupo com uma Bolex “à la Mekas” com o intuito de demonstrar meu respeito por ele. No caminho de trem de volta para o aeroporto, ele percebeu, de repente, que o poeta Yoshimasu Gozo, que ele pensava estar ali presente, não estava. Rapidamente, voltou-se para a câmera VHS e, brincalhonamente, disse: “Gozo! Gozo! Eu sinto sua falta”.
 
Mais tarde, recebi de Yoshimasu uma mensagem em vídeo para servir de abertura ao meu trabalho. O vídeo mostra o poeta com uma Bolex; era inverno na cidade de Obihiro. Na mensagem, ele se dirige a Mekas em lituano: “Mekas, Mekas, Jonas Mekas!”, e, em inglês, finaliza: “Todos nós sentimos sua falta!”
 
MUTUAL FILMS