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Programa 1 (2 filmes, 130min): Gertrud
Stern des Méliès [Estrela de Méliès] Dore O. | Alemanha Ocidental | 1982, 12’, 16 mm para DCP restaurado (Deutsche Kinemathek) + Gertrud Carl Theodor Dreyer | Dinamarca | 1964, 118’, 35 mm para DCP restaurado (Danske Filminstitut/Palladium) O último dos 14 longas-metragens dirigidos pelo cineasta dinamarquês Carl Theodor Dreyer se dedica à personagem Gertrud (interpretada por Nina Pens Rode), uma ex-cantora de ópera que largou a sua profissão para se casar com o frio servidor público Gustav Kanning (Bendt Rothe). Com o desgaste de seu casamento, ela pede o divórcio e se entrega ao amor por Erland Jansson (Baard Owe), um jovem compositor e pianista com um futuro promissor. Acompanhamos os diferentes encontros de Gertrud com os dois e com outras figuras de seu presente e passado, entre elas o grande poeta romântico Gabriel Lidman (Ebbe Rode) e o psicanalista Axel Nygren (Axel Strøbye). Diferentemente dos homens obcecados por suas profissões, a vocação principal de Gertrud é amar. Ela procura em seu par a mesma dedicação ao amor integral (“amor omnia”) que carrega consigo e está disposta a oferecer. O filme Gertrud baseia-se em uma peça de mesmo nome de 1906 do dramaturgo sueco Hjalmar Söderberg e reflete o sentimento de Dreyer em relação a sua própria obra cinematográfica, que contou com exigentes obras-primas realizadas ao longo de mais de 40 anos, como A queda do tirano (Du skal ære din hustru, 1925), A paixão de Joana d’Arc (La Passion de Jeanne d’Arc, 1928), O vampiro (Vampyr, 1932) e Dias de ira (Vredens dag, 1943). Por anos, Dreyer buscou, sem sucesso, adaptar a peça para o cinema. Quando finalmente conseguiu, levou ao extremo um estilo teatral já desenvolvido em seus filmes anteriores, com longos planos, elegantes movimentos de câmera e um foco intenso na dicção dos atores. Acrescentou elementos à peça, como um novo epílogo e cartelas com versos (escritos pela poetisa dinamarquesa Grethe Risbjerg Thomsen), que aparecem de forma periódica para refletir o estado interior de Gertrud, e simplificou elementos cinematográficos, como cenografia e diálogos, em busca de uma forma mais concisa. E, para atribuir à história um caráter de tragédia clássica – em contraste com o naturalismo da peça –, concentrou-se nas figuras dos personagens, dando-lhes o que chamou de um aspecto escultural. Gertrud teve uma recepção inicial insípida, porém logo foi abraçado por gerações jovens e cinéfilas de artistas, como a dos cineastas da Nouvelle Vague, na França, e a dos cineastas experimentais nos Estados Unidos. O cineasta e jornalista lituano-norte-americano Jonas Mekas escreveu, em outubro de 1965 para a Village Voice, logo após as exibições de Gertrud no Festival de Cinema de Nova York: “Embora mantenha uma atitude objetiva em relação aos seus personagens, como um autor deve fazer, Dreyer se identifica com Gertrud. Ele disse que usou o mesmo diretor de fotografia (Henning Bendtsen) para Gertrud e [seu filme anterior] A palavra (Ordet, 1955) – é por isso que ambos os filmes são iluminados com a mesma luz espiritual.” A exibição no IMS Paulista da cópia restaurada de Gertrud no dia 3 de dezembro vai contar com uma introdução presencial da crítica, professora e roteirista Lorenna Montenegro. Ambas as exibições de Gertrud também contarão com um curta-metragem restaurado da cineasta alemã experimental Dore O. (uma admiradora de Dreyer). O filme Stern des Méliès homenageia o nascimento do cinema com truques e trejeitos que mimetizam os filmes fantásticos do pioneiro francês George Méliès (1861-1938), especialmente A conquista do polo (À la conquête du pôle, 1912), uma adaptação de Júlio Verne que é frequentemente visto como o último grande filme do cineasta. Em sua homenagem, Dore O. cria uma fantasia cubista com sobreposições e jogos de luz e sombra, que também são característicos de seus próprios filmes. Dore O. disse: “A realidade do filme é a imaginação do espectador. O meu Polo Norte fica na região de Ruhr.”
Programa 2 (5 filmes, 127min): “Filmes de Dore O.” Blonde Barbarei [Barbarismo loiro] Dore O. | Alemanha Ocidental | 1972, 24’, 16 mm para DCP restaurado (Deutsche Kinemathek) + Kaldalon Dore O. | Alemanha Ocidental | 1971, 45’, 16 mm para DCP restaurado (Deutsche Kinemathek) + Lawale Dore O. | Alemanha Ocidental | 1969, 29’, 16 mm para DCP restaurado (Deutsche Kinemathek) + Alaska [Alasca] Dore O. | Alemanha Ocidental | 1968, 18’, 16 mm para DCP restaurado (Deutsche Kinemathek) + A travessia De nåede færgen Carl Theodor Dreyer | Dinamarca | 1948, 11’, 35 mm para DCP restaurado (Danske Filminstitut) Dore Oberloskamp nasceu em 1946, um ano após o término da Segunda Guerra Mundial, no vale do Ruhr, uma região industrial da Alemanha. Sob o nome artístico de Dore O., ela fez parte de uma geração de artistas que nasceu em uma Alemanha destruída pela guerra, e que presenciou uma rápida reconstrução nacional e muitas mudanças políticas. Apesar de boa parte de seus colegas do cinema experimental alemão (cujos diretores mais importantes incluíram seu marido e colaborador frequente Werner Nekes) dedicarem-se ao cinema político e marginal das guerrilhas, Dore O. voltou seu olhar para si mesma. A partir de 1968, com seu primeiro filme solo, Alaska, ela criou um cinema subjetivo em suas explorações de questões da psique humana, com críticas sociais sutis e muito pessoais, de um lado, e, de outro, materialmente experimental, com uso de sobreposições, edição na câmera, reciclagem de suas próprias imagens e de found footage, incluindo até o uso de fotoquímicos utilizados na indústria hospitalar. Ao longo dos seus mais de 30 anos de produção cinematográfica, que resultou na realização de 17 curtas e médias-metragens, Dore O. tomou como forte referência o protocinema, e inclusive desenvolveu obras de cinema expandido com esculturas e aparatos que apresentou isoladamente ou junto a seus filmes. O programa dedicado a Dore O. que passará no IMS Paulista conta com os primeiros quatro filmes dirigidos exclusivamente pela cineasta. Os filmes foram restaurados entre 2018 e 2021 em 2K pela Deutsche Kinemathek, em Berlim, a partir dos seus melhores materiais existentes em 16 mm e sob a supervisão da diretora, que faleceu logo em seguida, em 2022. Segundo Dore O: “Meus filmes sempre têm uma história. Não é necessário que outras pessoas reconheçam a história – é apenas para mim.” Ela também comentou sobre os filmes da sessão: Blonde Barbarei, um passeio pela memória recente da Alemanha: “Um filme para a libertação da sensualidade. Um filme contra o hospitalismo da sociedade. O olhar se cansou tanto de passar, de deslizar por barras, que nada mais consegue segurá-lo”. Kaldalon, uma invocação fantasmagórica de uma viagem recente à Islândia inspirada no romance O monte Análogo (Le Mont Analogue, 1952), do francês René Daumal: “Um filme de aventura não euclidiano, ambiguamente mutilado e transfigurado”. Lawale, um vislumbre teatralizado de uma família enclausurada cujo nome funde as palavras em alemão para “lava” e “baleia”: “Imagens de sonhos e pesadelos da burguesia. A memória é uma esperança cruel sem despertar.” Alaska, no qual uma jovem corre sem destino em uma praia deserta: “Um filme sobre emigração: um sonho sobre eu mesma, a consequência do ato com a sociedade”. Os filmes de Dore O. são exibidos no IMS Paulista com o apoio do Goethe-Institut São Paulo. A exibição no dia 4 vai contar com uma introdução presencial da curadora e pesquisadora de cinema experimental Roberta Pedrosa. E ambas as exibições contarão com um curta-metragem dirigido pelo dinamarquês Carl Theodor Dreyer, um cineasta admirado por Dore O. A travessia (cujo nome original se traduz como “Eles pegaram a balsa”) foi um dos filmes didáticos que Dreyer fez sob comissão nos anos entre as realizações dos seus longas de ficção Dias de ira e A palavra. Ele se inspirou no conto mítico de mesmo nome, escrito pelo então recém-vencedor do prêmio Nobel de Literatura Johannes V. Jensen, e foi realizado para o Conselho Dinamarquês para a Segurança Rodoviária, para alertar motoristas sobre o perigo de dirigir em alta velocidade. O filme acompanha um casal em uma moto (cujos membros são interpretados pelo casal Joseph e Kamma Koch) que atravessa uma região rural para pegar a balsa para a cidade de Nyborg. Conforme dirigem rapidamente, eles percebem ao seu lado um misterioso carro preto, cujo motorista deu-lhes um outro destino. Agradecimentos da sessão: Erich Brinkmann/Brinkmann & Bose, Christoph Hochhäusler, Diana Kluge + Masha Matzke/Deutsche Kinemathek (Cinemateca Alemã), Friederike Horstmann, Lorenna Montenegro, Marianne Jerris/Danske Filminstitut (Instituto Dinamarquês de Cinema), Roberta Pedrosa, Steve Macfarlane Minibios das convidadas: Programa 1: Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, curadora, pesquisadora acadêmica, jornalista cultural e professora. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Audiovisual (PPGCOM) na UAM (Anhembi Morumbi). Integra o Coletivo Elviras, a Abra e a Abraccine, além de ser diretoria executiva do Forcine. Cursou produção audiovisual na PUCRS e tem especialização em cinema e linguagem audiovisual na Estácio. Integra a comissão de seleção de curtas-metragens do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Dá aulas de roteiro na AIC-SP. Coordena o Festival As Amazonas do Cinema. Ministrou cursos para entidades como a Cinemateca Brasileira e o Sesc sobre o cinema clássico narrativo, a história do cinema através de filmes dirigidos por mulheres e as obras de cineastas canônicos, como Ida Lupino, Nicholas Ray e Samuel Fuller. Programa 2: Roberta Pedrosa vive e trabalha em São Paulo. É curadora, pesquisadora e artista, com foco em cinema e artes visuais. É curadora de curtas-metragens do Festival Ecrã (Rio de Janeiro) e mestra em história, crítica e teoria da arte pela Universidade de São Paulo (ECA-USP). Escreve sobre arte e cinema, tendo contribuído com publicações como Revista Limite (Brasil), El Cine Probablemente (México), Photogénie (Bélgica) e para instituições como a Cinemateca do MAM-RJ. Pesquisou e programou filmes de diversas diretoras importantes ligadas ao cinema experimental, entre elas Chantal Akerman e Narcisa Hirsch. |
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