<<
“Reflexões sobre o filme Alaska, de Dore O.”
 
O texto a seguir foi escrito em maio de 2022, dois meses após a morte de Dore O., pela também cineasta alemã experimental Ute Aurand (nascida em 1957). Ele foi publicado originalmente em inglês para o livro Figures of Absence: The Films of Dore O. (2023) , um volume extenso sobre a obra cinematográfica de Dore O. que foi organizado pela preservacionista e pesquisadora alemã de cinema experimental Masha Matzke. Agradecimentos vão à Ute Aurand (que participou na edição da Sessão Mutual Films de setembro de 2022 ) pela permissão de postar a tradução para o português do texto.
 
O primeiro filme que vi de Dore O. e Werner Nekes foi Beuys (1981, um retrato do artista alemão Joseph Beuys co-dirigido pelo casal). Isso foi em 1981, no Festival de Curtas-Metragens de Oberhausen, onde meu primeiro filme, Profundamente envolvida numa conversa silenciosa (Schweigend ins Gespräch vertieft, 1980), também estava sendo exibido. Beuys era um filme conceitual, meu filme era muito diferente. Quando vi Alaska anos depois, senti algo familiar na forma como as imagens de Dore O. se voltavam para o silêncio. Alaska é o meu filme favorito de Dore O.. Foi o primeiro filme dela (solo), e os primeiros filmes dos cineastas geralmente surgem de uma necessidade interior, sem se anunciarem previamente, simplesmente aparecendo.
 
Já vi Alaska pelo menos seis vezes ao longo de muitos anos, às vezes em programas que eu mesma organizei. Em 2001, nosso grupo FILMSAMSTAG e Eva Orbanz, a ex-diretora do departamento de cinema da Deutsche Kinemathek, convidaram Dore O. e seus filmes para uma retrospectiva nos cinemas do Arsenal e do Babylon-Mitte.
 
Antes de assistir a recente restauração digital de Alaska, vou escrever de memória...
 
Primeiro, há uma jovem de cabelos compridos, vestindo um vestido de tecido fino e esvoaçante, correndo repetidamente em direção à câmera, descalça, em câmera lenta, na praia. O mar ao fundo. Lembro-me das ondas recuando...Mas, repetidamente, a mulher correndo descalça na praia. Sei que há outras imagens, mas para mim, essa mulher correndo em direção à câmera é Alaska. Há algo de urgente na maneira como ela corre em câmera lenta. É como se quisesse dizer algo, mas não dissesse. O filme guarda um segredo ao qual não consigo me aproximar, mesmo depois da quarta ou quinta vez que o assisto. O segredo pertence à mulher que corre. Ela quer nos dizer algo em silêncio, como se presumisse que já sabemos. Tudo em Alaska é vago, apesar de sua forte assertividade. Um pouco como contar um sonho sem saber o significado. É a cineasta que vemos, sinto isso imediatamente. Não tenho provas, mas essa mulher é Dore O., seja ela de fato ou não. É um filme sobre a perspectiva de vida dessa mulher. Talvez uma perspectiva fundamental, mas em todo o caso, é a sensação da vida no momento da filmagem. O filme parece espontâneo. Só depois de várias vezes assistindo, começo a ver cenas do Norte — Alasca! — mas sempre me esqueço de que elas estão no filme. Na minha mente, o filme é leve — azul-claro, como o vestido e o mar. Em certo momento, a mulher flutua na água, em dupla exposição. Perto do final do filme, lembro-me de um homem nu entrando em cena; ele tem cabelos compridos. Depois ambos estão nus e deitados em uma grande cavidade na areia. Como crianças brincando, mas muito sérios. As coisas permanecem incertas, como um sonho, então é difícil pedir clareza.
 

Quando revi o filme, digitalizado no computador, ficou claro desde a primeira imagem que eu havia criado meu próprio filme na memória...
 
Uma tomada estática de uma prisão marca a abertura de Alaska, seguida por um close-up de um canto de concreto em um edifício. Eu tinha me esquecido completamente disso. Na minha lembrança, o filme começa com a mulher correndo com um vestido longo e esvoaçante, mas de fato, ela só aparece assim no último terço do filme. No início, a mulher veste um traje esportivo preto e justo.
 
Ao rever o filme, me sinto particularmente impressionada com a montagem de Alaska. Seguindo um princípio rigoroso, Dore O. inseriu breves tomadas de diferentes motivos visuais nas mesmas longas imagens do mar. O oceano estrutura Alaska, num constante vaivém entre o mar tempestuoso e breves cenas da mulher na praia, fotografias de povos indígenas e o reaparecimento ocasional do canto de concreto. Mesmo que Alaska seja editado num ritmo rigoroso e, portanto, tenha algo de conceitual, no geral permanece enigmático, surreal e muito pessoal.
 
Livre de regras técnicas e cinematográficas, seguindo apenas sua própria lógica interna, Alaska me coloca em um estado de liberdade. Dore O. deixa muito espaço para os pensamentos e sentimentos de cada um. É isso que eu gosto em Alaska.
 
A sequência da mulher deitada no mar é longa, filmada em dupla exposição e em um tom azul-turquesa claro. Vestindo um vestido curto de verão, com os braços estendidos, ela flutua, luminosa e melancólica, entre a vida e a morte. Breves imagens em preto e branco de gestos humanos interrompem sua flutuação. Agora que Dore O. faleceu, essa delicada cena dramática parece uma profecia. O filme Alaska não é mais o mesmo.
 
Aliás: No último sábado, dia 21 de maio de 2022, exibi Alaska com os filmes Subjektitüde (1967), de Helke Sander, At Land (1944), de Maya Deren, e meu Profundamente envolvida numa conversa silenciosa em uma oficina com mulheres do Centro Alemão-Muçulmano no cinema do Arsenal. Alaska foi exibido depois de At Land e foi incrível a semelhança entre algumas imagens: no início, vemos as pegadas de Dore O. na areia antes que ela saia do enquadramento - Maya Deren corre em direção ao infinito na praia no final de seu filme...e a presença do mar - Dore O. faz o mar recuar, como na cena inicial de At Land - só que o mar de Dore O. está de cabeça para baixo... Será que Dore O. conhecia At Land, ou seriam arcaicas essas imagens e ideias femininas?

 
MUTUAL FILMS