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“Momento de uma vida: Paulin Soumanou Vieyra”
 
O texto a seguir foi originalmente escrito em francês por Ousmane Sembène e publicado em junho de 2004, na edição número 170 do jornal Présence Africaine, em homenagem ao seu falecido amigo e colaborador Paulin Soumanou Vieyra na ocasião dos 50 anos do filme África sobre o Sena, co-dirigido por Vieyra e Mamadou Sarr. A tradução para o português foi feita com a permissão de Alain Sembène, filho do autor.
 
Os anos 1950s formaram uma década de rupturas...Um sopro novo, anunciador de um mundo em gestação, abalou o planeta. Levado pela sua existência, um grupo de jovens vanguardistas africanos encontra-se em Paris, fazendo os sinos dobrarem pela “noite colonial”.
 
Foi nesses anos de grandes mutações históricas que um dos nossos, Paulin S. Vieyra, apresentou para um público pequeno seu primeiro curta-metragem, intitulado África sobre o Sena.
 
Assim como seus três colaboradores, Robert Caristan (o cinegrafista), Jacques Melo Kane et Mamadou Sarr, ele frequentou a escola de cinema IDHEC, em Paris. Depois [do mesmo grupo] veio Môl (1966), outro curta-metragem, rodado desta vez no Senegal. Esses dois curtas-metragens foram como “socos de pilão” no mundo fechado do cinema. África sobre o Sena foi projetado em todas as academias da França que recebiam estudantes africanos, para servir de base a todos os debates. Paulin, estudando em Paris e eu trabalhando em Marseille, nos encontrávamos com frequência na sede da editora Présence Africaine [fundada pour Alioune Diop em Paris em 1947 e responsável por publicar diversos trabalhos de Sembène e Vieyra], para enriquecer-nos mutuamente com pontos de interesse comum: o cinema, a literatura e o teatro. Embora episódicos, esses reencontros fortaleceram nossas afinidades; o tempo consolidava nossos laços. Esses anos de tomada de consciência foram também anos incandescentes: a queda de Dien Bien Phu, o início da luta de libertação da Argélia, o historiador e antropólogo senegalês Cheikh Anta Diop defendeu sua tese, Nação negra e cultura (Nation nègre et culture, 1954), numa defesa que durou 7 horas, houve também o Primeiro Congresso dos escritores e artistas negros em Paris, a Conferência de Bandungue, a conquista da independência da ex-Costa de Ouro Britânica, que adotou o nome do ex-império mandinga de Gana.
 
A África olhava para o futuro. Vinda de todos os horizontes, de todas as margens do Níger e do Congo, da savana e da floresta, uma juventude ardente participava do Festival Mundial da Juventude na Europa Central, uma afirmação de si. Testemunha desses grandes momentos, Paulin Soumanou Vieyra filmava tudo...dia e noite. Nenhum encontro o deixava indiferente. Compartilhando cabine de trem e quarto de hotel, eu era seu “pequeno assistente”, levando seus rolos de película para as filmagens. De noite ou de manhã cedo, enquanto eu fumava meu cachimbo, ele organizava suas anotações que um dia virariam narrações de filmes. Juntos, visitamos Varsóvia, Budapeste, Praga, Moscou, Sofia etc.
 
Cinquenta anos após a estreia de África sobre o Sena, companheiro do seu itinerário, ainda me pergunto onde foram parar os quilômetros de película que ele filmou. Testemunho eternamente vivo daquele momento de nossa história: um continente despertado e em marcha! Testemunho igualmente deste momento, nosso patrimônio visual...
 
Com a reconquista da independência, retornei ao Senegal, onde encontrei Paulin S. Vieyra no cargo de chefe do Gabinete do Cinema. Toda semana, com sua equipe de cinegrafistas, ele preparava as atualidades nacionais: “Senegal em marcha”. Ele também ministrava cursos de filmagem aos seus colaboradores, entre eles, Georges Caristan, que se tornaria o cinegrafista principal dos meus filmes.
 
Então me ocorreu a ideia de explorar nosso continente, do qual eu nada sabia, para além da minha província. Eu, no entanto, havia visitado os países da Europa. Solitário, aqui estava eu, trilhando os caminhos de meses e meses à deriva. De volta a Dacar, contei a Paulin S. Vieyra sobre minha intenção de aprender a fazer filmes. Sua resposta foi direta: “Que bom; estou aqui.”
 
Assim [em 1962], voltei para a terra dos soviéticos para aprender a fazer filmes. Pouco mais de um ano depois, fiquei sabendo que uma delegação do governo senegalês, conduzida pelo primeiro presidente do Conselho de Ministros, faria uma visita. Paulin acompanhava a delegação como repórter. Este reencontro em Moscou foi uma grande alegria para nós. Ele me trouxe notícias do país; durante sua estadia, falamos sobre cinema e filmes.
 
Após concluir minha formação, voltei para minha terra equipado com uma ferramenta essencial: uma câmera de 35 mm. Paulin S. Vieyra me ajudou a realizar O carraceiro, meu primeiro curta-metragem. A máquina estava em movimento, porém, a década de 1960 foi um período de “pão-durismo”, pois, sendo uma indústria, a produção cinematográfica é regida pelas leis e regras das finanças. Com a independência, muitos jovens quiseram, com empolgação, se tornar “cineastas”, criando assim um núcleo em torno de Paulin e uma associação para unir forças. Sempre que um cineasta conseguia concluir um filme, nós o aplaudíamos e comemorávamos. A associação era um lar vibrante. Foi então que Paulin iniciou a redação de sua História do cinema, que consistiu em depoimentos sobre diversos cineastas e artigos para jornais. Entre os “encontros cinematográficos” realizados no Festival de Cartago e no FESPACO [Festival Pan-Africano de Cinema e Televisão de Uagudugu, um evento que Vieyra ajudou a fundar em 1969], ele também deu vida à Associação dos Críticos.
 
Por ocasião do quinquagésimo aniversário de África sobre o Sena, me pergunto, e sempre me perguntarei: não fosse pelos meus laços densos e profundos com Paulin S. Vieyra teria eu feito filmes?
 
O Primogênito dos Anciãos
 

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“Os acervos de Sembène e Vieyra em Bloomington:
Uma entrevista com Alain Sembène, Jacques Vieyra e Stéphane Vieyra”

 
O texto a seguir foi originalmente publicado em francês em junho de 2025 no site africultures.com pelo jornalista e crítico francês de cinema Olivier Barlet, um especialista no cinema africano. Ele depois foi publicado em inglês em setembro de 2025 no veículo Black Camera Journal pela Universidade de Indiana. A conversa representa um encontro entre Barlet, o professor universitário senegalês de ciências políticas Saïba Bayo, dois dos filhos de Paulin Soumanou Vieyra e um dos filhos de Ousmane Sembène. Ela foi realizada durante um workshop sobre os acervos dos cineastas que reuniu pesquisadores do mundo inteiro na Universidade de Indiana, na cidade norte-americana de Bloomington, entre maio e junho de 2025. Agradecimentos vão a Barlet pela permissão para postar aqui a tradução em português.
 
O workshop aconteceu durante o ano que marcou o centenário de Vieyra, e informações sobre as diversas comemorações do centenário que foram realizadas pelo mundo em 2025 podem ser encontradas no site da associação PSV-Films . As comemorações incluíram eventos realizados em quatro cidades brasileiras – Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro e Salvador – que foram organizados principalmente pelo professor de história Sílvio Marcus de Souza Correa, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

 

Impressões sobre Bloomington
 
Olivier Barlet: Estamos aqui em Bloomington na companhia de pesquisadores que vieram trabalhar nas histórias de suas famílias. Como vocês se sentem em relação a isso?

 
Alain Sembène: Foi muito difícil trazer esses acervos para cá. Levou vários anos. Esta é a primeira vez que venho a Bloomington e é muito emocionante. Eu tinha medo de que os arquivos desaparecessem, mas aqui estão eles, salvos e em excelentes condições. Estou muito satisfeito com o resultado. Tudo foi digitalizado, tanto os textos, quanto os filmes. Esses arquivos reuniram pesquisadores do mundo todo e ajudarão as pessoas a conhecer e compreender melhor meu pai.
 
Stéphane Vieyra: Eu já fui convidado para um workshop em 2019, cujo objetivo era estudar a importância de Paulin Soumanou Vieyra no mundo do cinema africano. Vários participantes discutiram a possibilidade de transferir o acervo que havíamos resgatado. Nossa mãe havia conservado todo esse patrimônio. Trouxemos tudo para a França para preservá-lo, mas os baús estavam guardados em um porão. O acervo resistiu à passagem do tempo, mas precisava ser mais bem conservado e disponibilizado. A Covid-19 atrasou o processo, mas conseguimos transferir os materiais para o Black Film Center & Archive na Universidade de Indiana em 2021. Quando encontrei na Biblioteca Lilly da universidade um convite feito por nossa mãe para comemorar seu 40º aniversário na casa dos Sembènes, isso me fez lembrar dos laços muito fortes que uniam nossas duas famílias. Nós, os filhos, assumimos a responsabilidade de preservar estes laços. E estamos felizes que os acervos dos nossos pais tenham ido parar na mesma universidade – faz todo o sentido.
 

Duas famílias
 
OB: Quais são as lembranças que vocês têm das relações entre as duas famílias?
 
AS: Éramos muito próximos. Crescemos juntos. Eu era criança, então o fato de nossos pais trabalharem com cinema era secundário. Era como se fôssemos uma família. Nós nos víamos com frequência, várias vezes por semana, e nos dávamos muito bem. Havia muito carinho, um ambiente realmente muito bom. Isso criou laços muito fortes. Mais tarde, percebi que havia uma herança cultural. Meu pai viajava muito, tanto que, para mim, a família Vieyra me proporcionou estabilidade psicológica. Eles foram muito bons para mim.
 
OB: E do lado de Vieyra, pelos arquivos fica claro que Paulin também estava sempre viajando...
 
Jacques Vieyra: Sim, ele viajava muito. Mas nossa mãe era muito presente. Nós nos acostumamos com as viagens dele e com o fato de ele voltar com presentes. Eu realmente não sentia falta dele.
 
SV: Eu sabia que haveria presentes quando ele chegasse em casa!
 
OB: Vocês têm mais ou menos a mesma idade, não é?
 
SV: Não, há seis anos de diferença entre mim e Jacques.
 
JV: E Alain é quatro anos mais velho do que eu.
 
AS: Eu sou o mais velho – o sábio do grupo, pode-se dizer!
 
SV: É verdade que Paulin viajava muito. Lembro-me de que todas as vezes que comíamos frango à bicicleta, era porque ele tinha ido ao Alto Volta! [“Frango à bicicleta” é o nome comumente dado na África Francesa Ocidental para as galinhas livres, seja ou porque parecem andar de bicicleta, ou porque são levadas por bicicleta ao mercado para serem vendidas.] Ele tinha uma mala de papelão que usava para essa viagem. E outra mala para as outras viagens. E num depósito em casa, havia roupas de inverno, o que não fazia sentido para mim, já que eram bem quentes!
 
JV: Nossa mãe sentia a falta dele. Às vezes, ela comentava sobre isso…
 
OB: Ghaël Samb me disse que vocês formaram um grupo chamado “os herdeiros”. Isso os ajudou a lidar com a questão dos acervos?
 
SV: Sim, o grupo nasceu do desejo de compartilhar nossas dificuldades em localizar informações, lançar os filmes, vender trechos de filmes, etc. Ghaël é muito ativa, assim como Henriette Duparc. Acho que a ideia original foi da Henriette, inclusive. Pessoalmente, eu dirijo a PSV-Films e já estou sobrecarregado. É muita coisa para administrar, então criamos um grupo no WhatsApp para identificar os herdeiros. Eu entrevisto os recém-chegados para explicar as regras do grupo. Há os filhos do cineasta Momar Thiam, o filho de Mahama Johnson Traoré, a família Duparc, Alain é ativo e por aí vai. Com Marrocos e Argélia também, somos cerca de trinta pessoas. O grupo é aberto.
 

Os acervos nos Estados Unidos
 
OB: Em relação aos arquivos, não estou dizendo nada que vocês já não saibam, mas, num momento em que o movimento para a restituição e devolução de objetos históricos da Europa à África está começando, algumas vozes se levantaram na África lamentando que os arquivos de Sembène e Vieyra tenham ido para os EUA. O que vocês diriam a essas pessoas?
 
JV: É verdade que eu inicialmente achei estranha a ideia de depositarmos os arquivos nos EUA. Seguimos os passos dos nossos pais, defendemos o renascimento africano, acreditamos que as coisas devem ser administradas por africanos. Levei um tempo para eu chegar a um entendimento da situação, e agradeço a Stéphane por ter assumido a responsabilidade enquanto isso. Acho que precisamos, de fato, superar as divisões. É importante que o público entenda que não se trata de objetos no sentido tradicional, mas de papéis e celuloide, que podem se deteriorar e desaparecer com maior facilidade. Estamos aproveitando ao máximo a cultura de preservação dos norte-americanos.
 
SV: A França também tem essa cultura, é claro, mas apesar de todos os nossos pedidos, não recebemos resposta. Assim, vimos a conexão norte-americana como providencial. O público precisa perceber que é melhor para os arquivos estarem nos EUA, nas condições ideais que eles têm aqui, em um dos centros de preservação mais importantes do país. A área de armazenamento aqui tem umidade perfeita e não há muitos lugares no mundo que oferecem essa qualidade.
 
OB: Creio que, após alguma hesitação, Ousmane Sembène doou seus filmes à Cinemateca Africana em Uagadugu (https://cinemathequeafricaine.org/en/) – correto?
 
AS: Ele cedeu cópias dos filmes e não os materiais originais, que estão em laboratórios na Europa e em Marrocos. Antes de falecer, meu pai tomou a iniciativa de enviar seu acervo para os Estados Unidos. A Universidade de Indiana foi sua porta de entrada para os EUA na década de 1970. Ele ficou aqui por um tempo. Ao longo de toda a sua carreira, manteve ótimas relações com as universidades norte-americanas. Mas não só isso; ele tinha muitos amigos nos EUA, como Danny Glover e Spike Lee. Ele também contribuiu ativamente para o Festival de Cinema Africano de Nova York, no Bronx e no Harlem.
 
OB: Os arquivos são acessíveis para pesquisadores de todo o mundo?
 
AS: Sim, quase todos os materiais foram digitalizados e estão disponíveis gratuitamente na Internet. Isso fazia parte do acordo que meu pai iniciou. Comecei a trabalhar com o FESPACO e entrei em contato com os arquivos no Senegal para que eles também possam ter acesso, assim como com a Cinemateca Marroquina, que foi inaugurada em fevereiro de 2025. Estou muito feliz que esses arquivos estejam sendo conservados aqui em tão boas condições.
 
OB: Disseram-me na Biblioteca Lilly que se eu quisesse uma cópia de determinado documento, custaria 30 centavos por página.
 
AS: Sim, se você quiser uma cópia impressa, terá que pagar – dá trabalho imprimir, isso é normal. Mas o acesso aos documentos é gratuito. E você pode fotografar ou escanear o que quiser durante sua consulta presencial, ou baixar da Internet, e isso também é gratuito. Até agora, cerca de 90% dos arquivos foram digitalizados. São vários milhares de páginas!
 
OB: Quanto ao acervo de Paulin Soumanou Vieyra, o programa de digitalização foi interrompido devido aos cortes no financiamento federal durante o governo de Donald Trump...
 
SV: O caminho de Vieyra é tortuoso! Não é algo que me surpreenda! Sempre há surpresas. Inicialmente, propus o acervo ao INA [Instituto Nacional de Arquivos da França], mas eles só queriam as fotos. Um amigo arquivista me disse para jamais separar os elementos de uma coleção, para conservar o conjunto. Na França, ninguém tinha orçamento para gerenciar todo o acervo. Por isso, a escolha dos americanos foi uma oportunidade imperdível. E estou completamente satisfeito. Visitei as salas de armazenamento em 2019 e fiquei muito impressionado – prateleiras altíssimas, mas onde tudo é acessível! Os documentos foram desinfetados na chegada e estabilizados antes de serem armazenados em atmosfera hidrométrica controlada. O responsável tem um telefone que o informa constantemente sobre os dados. Se houver alguma diferença de temperatura em determinada zona, um alarme dispara. Você realmente tem a impressão de que o acervo está em um local seguro. Quanto à digitalização, foi um longo processo até agora. Terri Francis, a então diretora do Black Film Center & Archive na universidade, veio à França por uma semana para consultar o acervo e avaliar sua pertinência e ficou convencida. Hoje, o novo diretor, Novotny Lawrence, assumiu o cargo e Jason Byrne tem realizado a digitalização com grande competência – dá para perceber a paixão dele. Ele conseguiu classificar todos os arquivos, referenciando-os por pastas em caixas. Já é possível consultar a lista de arquivos no site. Até agora 30% dos itens já foram digitalizados. O novo governo, de fato, cortou o orçamento federal de US$ 325.000,00 que foi destinado a esse fim, assim como fez com muitos outros programas em todas as universidades nos EUA. Portanto, estamos buscando financiamento novamente. Que tal um patrocinador africano para nos permitir continuar? Isso poderia financiar o doutorado de um estudante africano sobre esses arquivos. A Universidade de Indiana possui uma fundação que pode receber doações. De qualquer forma, estamos buscando uma solução. Vamos seguir na luta!
 

As autoridades senegalesas
 
Saïda Bayo: Com relação aos arquivos, como foi a dinâmica que vocês estabeleceram com as autoridades senegalesas?
 
SV: Consegui conhecer Hugues Diaz, que era o novo chefe do Departamento de Cinema em Senegal. Foi um encontro incrível, organizado por Clarence Delgado [cineasta senegalês que também trabalhou como assistente em filmes dirigidos por Sembène e Vieyra]. Deu início a tudo. Foi graças a Diaz que, em 2012, uma homenagem nacional foi prestada ao meu pai. Ele mobilizou as universidades e intelectuais senegaleses durante uma semana. Doamos toda a biblioteca da família para a Universidade Cheikh Anta Diop, em Dacar. Uma exposição com alguns dos arquivos do meu pai – seus crachás de imprensa, medalhas, etc. – foi organizada no campus. Isso me deu confiança. Conseguimos apresentar a exposição no FESPACO em 2013. Sempre faço questão de ressaltar que meu pai era senegalês por adoção e beninense por nascimento. Sempre tento usar algo simbólico do Benim e um boubou senegalês [um manto tradicional], pois temos raízes no Senegal. E pedimos que o Senegal e o Benim recebessem cópias dos arquivos quando fossem digitalizados – está previsto em nosso acordo com a Universidade de Indiana. O lado panafricano de Vieyra continua vivo através dos arquivos. Em 2025, a Universidade Gaston Berger organizará uma conferência em Saint-Louis, Senegal. E seria bom se o dia 4 de novembro fosse um dia de comemoração, pois foi a data da morte de nosso pai. Poderíamos depositar uma coroa de flores no cemitério de Bel Air, onde nossos pais estão enterrados. Também solicitei oficialmente à Prefeitura do Planalto de Dacar que nomeie uma rua em homenagem a Paulin, em reconhecimento ao seu papel na criação e no estímulo dos primeiros cinejornais senegaleses. África sobre o Sena foi produzido com dois senegaleses: Jacques Mélo Kane e Mamadou Sarr. Poderia haver uma exposição dos arquivos e uma exibição do único longa-metragem de ficção dirigido por meu pai, Em prisão domiciliar (En résidence surveillée, 1981), que tem um significado especial para o Senegal.
 
JV: Meu nome é Jacques em homenagem a dois Jacques: Jacques Fontaine, que acolheu meu pai durante a guerra, e Jacques Mélo Kane, que faleceu prematuramente em 1958 e que era amigo do meu pai. É importante situar Paulin adequadamente em relação aos seus laços com o Senegal. Duas de suas irmãs, tia Jacqueline e tia Renée, estudaram no Senegal, assim como seu próprio pai, Tertulien. Em Paris, ele frequentava um meio predominantemente senegalês. Era muito próximo da família Diop e, notavelmente, do poeta David Diop, que morreu em um acidente de avião na costa de Dacar em agosto de 1960.
 
AS: Propusemos que um arquivista senegalês participasse deste workshop, mas não houve resposta.
 
JV: Penso que a disfuncionalidade é sistêmica. Não se trata apenas de indivíduos. Não há transferência neste sistema.
 

A preservação de cinema
 
AS: Nenhum país estava disposto a fazer a digitalização; os americanos fizeram. Sou grato por este workshop ter sido organizado por Vincent Bouchard e Stéphane Vieyra, pois me permitiu vir e ver os arquivos com meus próprios olhos. Sembène e Vieyra trabalharam juntos, e seus arquivos estão no mesmo lugar. E os filmes existem e circulam.
 
OB: Como foi realizada a restauração de Em prisão domiciliar?
 
SV: No âmbito norte-americano, Mahen Bonetti, do Festival de Cinema Africano de Nova York, me ajudou, e a Criterion Collection quis lançar O avesso do cenário após a restauração de Ceddo, o que significa que eles também distribuem os filmes de Paulin. O CNC contribuiu com vinte e cinco mil Euros para a restauração de Em prisão domiciliar, o que me pareceu bastante improvável, visto que meus primeiros esforços remontam a 2012. Precisávamos comprovar que o filme havia sido financiado por capital europeu ou francês na época. O Institut Français também contribuiu com vinte mil Euros para cobrir todos os custos da restauração. Mas também foi preciso o trabalho de entusiastas no laboratório. Eles não esperaram a conclusão do financiamento para começar a restauração. O objetivo era poder apresentar o filme na Cannes Classics [uma mostra paralela no Festival de Cannes], que exige um alto padrão de qualidade.
 

Homenagens
 
OB: O centenário do nascimento de Ousmane Sembène foi comemorado em 2023 com eventos, conferências e publicações. Este ano, 2025, é o centenário do nascimento de Paulin Soumanou Vieyra. Alain, qual a sua avaliação das comemorações de 2023?
 
AS: Houve comemorações em todo o mundo; foi muito positivo. A Cinemateca Francesa organizou uma magnífica retrospectiva dos filmes do meu pai. No Senegal também houve muitas comemorações e os filmes foram exibidos. O que acho extraordinário é que as pessoas estão interessadas. Acho que essa energia precisa ser canalizada. Essa primeira geração do cinema africano era apaixonada, amava o cinema e se dedicava a ele sem reservas. É uma bela surpresa ver que existe um público tão interessado.
 
SV: O público geral não conhece Vieyra, então é mais difícil. Estamos nos preparando há muito tempo. A edição de FESPACO em 2025 o homenageou. É uma pena que não tenhamos sido selecionados para a Cannes Classics, o que teria dado uma visibilidade, mas estamos seguindo em frente em diferentes países – no Brasil, nos Estados Unidos, no Senegal, na França, etc. – antes de encerrar no Benim, espero.
 
OB: O nome Vieyra é de origem brasileira?
 
JV: Sim, o ancestral de Paulin Vieyra foi deportado de Bida, um pequeno reino na Nigéria, e sem dúvida passou por Porto-Novo, no Daomé na época, antes de ser enviado para o Brasil. Em 1835, após a Revolta dos Malês, alguns dos escravizados foram libertados e retornaram ao Daomé. Eles são conhecidos como os Agudas. Sabino Vieyra adotou o nome de seu dono, um judeu marrano chamado Vieyra. Como seu nome original era Mama Gouyé, ele se tornou Gouyé Vieyra. No arquivo de Paulin Soumanou Vieyra, há um dos testamentos de seu pai – meu avô – Tertullien Vieyra; ele o assinou como Tertullien, e com os primeiros nomes de seu pai e deste ancestral, ou seja, Tertullien Sabino Sébastien Gouyé Vieyra. Gouyé desapareceu da linhagem posteriormente, embora alguns, ao contrário, quisessem destacar o nome original.
 
OB: Houve um filme na competição oficial do FESPACO em 2025 sobre a Revolta dos Malês: Malês (2025), do brasileiro Antônio Pitanga. Muito obrigado a todos pela conversa!
 

Adendos para pesquisadores:
 
90% dos arquivos de Ousmane Sembène foram digitalizados. Eles estão acessíveis online. Digite “Sembène” no mecanismo de busca e a lista de arquivos aparecerá, podendo ser explorada por arquivo. Para ver o que está acessível, clique na aba “Online content”) (“Conteúdo online”) e role a lista para baixo, clicando nas palavras sublinhadas. Quando for possível fazer o download (“Printable view”, ou visualização para impressão), pode levar algum tempo, dependendo da conexão. O contrato estipula que uma cópia impressa de todo o acervo digitalizado será fornecida às autoridades senegalesas no final do ano, para que elas possam disponibilizar o material no Senegal.
 
Quanto ao acervo de Paulin Soumanou Vieyra, apenas cerca de 30% da digitalização foi concluída até o momento. A retirada do financiamento federal pelo governo de Donald Trump significa que novas soluções precisam ser encontradas, já que o contrato do arquivista-chefe teve que ser rescindido. A lista dos materiais disponíveis pode ser encontrada no archives.iu.edu (“Contents”, ou conteúdo).
 
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