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“Texto de apresentação de Eliane Arakaki para O solo selado”
O texto a seguir é o roteiro da apresentação que foi feita pela pesquisadora de cinema iraniano Eliane Arakaki antes da primeira exibição do filme O solo selado no IMS Paulista no dia 16 de junho de 2026. Ele foi postado aqui com a permissão da autora. Boa noite, pessoal! Obrigada pela presença de vocês aqui. Gostaria também de agradecer à Mariana e ao Aaron, da Mutual Films, pelo convite para apresentar esta sessão e pela iniciativa de trazer para o público brasileiro, pela primeira vez, essas duas obras raras do cinema iraniano. Quando a gente fala em cinema iraniano, pensa logo em diretores como Abbas Kiarostami, Jafar Panahi e Asghar Farhadi, que tiveram suas obras projetadas para o mundo nos grandes festivais europeus e dos EUA. Mas o fato é que grandes cineastas no período anterior à Revolução de 1979 permanecem pouco conhecidos, apesar da sua importância na história do cinema iraniano e na influência que eles exerceram nas gerações que se seguiram, e esse é o caso da Marva Nabili e do Sohrab Shahid-Saless. A partir do final da década de 1950, houve muitas tentativas de renovação estética do cinema iraniano, em grande medida como contraponto ao cinema comercial dominante da época, conhecido como filmfarsi, muito influenciado pelos cinemas egípcio, indiano e estadunidense. Em contraste com o filmfarsi, nós vemos a consolidação do chamado cinema-ye motefavet (que significa “cinema diferente”), representado por cineastas como Bahram Beyzai, Dariush Mehrjui e Nasser Taghvai. E aqui a gente encontra um conjunto heterogêneo de obras que buscavam explorar novas possibilidades formais e abordar temáticas sociais. Além disso, a censura do regime do xá, as dificuldades de financiamento para projetos independentes e os obstáculos de distribuição também afetaram a produção desses filmes. Então, é nesse cenário de múltiplas tensões em que surgem experiências fundamentais para o desenvolvimento do cinema iraniano, como O solo selado, da Marva Nabili, de 1977. Em persa, Khak-e sar beh mohr. Antes de se dedicar ao cinema, a Marva Nabili estudou pintura em Teerã, onde ela teve contato com uma das figuras mais importantes da modernidade artística iraniana, Fereydoun Rahnema (cineasta, escritor e poeta), a quem O solo selado é dedicado. Ela também era uma poetisa vinculada à chamada “Nova Onda” da segunda metade da década de 1960. Por influência do Fereydoun, ela continuou os estudos de cinema na Inglaterra e nos Estados Unidos, entrando em contato tanto com o cinema de autor europeu, quanto com as discussões estéticas que circulavam naquele momento. Depois, ela voltou para o Irã para realizar outro projeto cinematográfico e acabou aproveitando essa estadia para filmar clandestinamente O solo selado. Em meio às transformações políticas que levaram à Revolução, a Marva deixa o Irã, leva os negativos, faz a edição nos Estados Unidos e não volta mais para o Irã. É importante lembrar que, antes da Revolução de 1979, apenas três longas-metragens de ficção foram dirigidos por mulheres no Irã, e O solo selado foi o segundo deles – filmado em 16 mm, com uma equipe muito reduzida, em apenas seis dias. E, com exceção da Flora Shabaviz, que interpreta a Rooy-Bekheir (personagem principal que vocês vão conhecer daqui a pouquinho), todos os demais personagens são atores não profissionais. Esse filme ficou praticamente esquecido até ser restaurado e redescoberto recentemente. A Marva está viva, com 85 anos, e chegou a participar de algumas sessões por ocasião da estreia mundial da versão restaurada do filme, em 2024. O solo selado foi realizado em um momento em que o Irã passava por transformações profundas. O governo do xá promovia uma modernização acelerada, enquanto grande parte da população permanecia ligada a formas tradicionais de vida. E o corpo feminino frequentemente se tornava o espaço onde essas tensões eram projetadas – e isso acontece até hoje. O solo selado condensa as ambivalências desse processo social na recusa de Rooy-Bekheir, uma adolescente de 18 anos que rejeita todos os pretendentes e está sendo forçada a se casar – podem ficar tranquilos, porque isso não é um spoiler e até está no ótimo texto de divulgação que a Mariana e o Aaron fizeram para o folheto do IMS. Por meio de uma câmera frontal, quase sempre fixa, e de planos na sua maioria longos e médios, a Marva Nabili busca trazer para o cinema a vida cotidiana de uma pequena vila do sudoeste do Irã chamada Qaleh Nurasghar – gente, eu procurei muito, mas não achei por nada essa cidade no mapa. Embora a Marva Nabili cite influências como Robert Bresson e Bertolt Brecht, o seu cinema também dialoga com sensibilidades profundamente presentes na cultura persa. Ela mesma conta que “existe um olhar de pintora nos enquadramentos e na composição” e que procura trazer para o cinema a estética das miniaturas persas. Em cada parte da miniatura há um detalhe que revela algo da narrativa, e ela organiza o quadro como um espaço que precisa ser explorado. Cabe a nós, portanto, reunir esses elementos para construir o sentido do filme. O cotidiano dessas pessoas passa, então, a ser um aspecto da vida com valor narrativo. A observação dos gestos ordinários e a atenção às rotinas repetitivas da vida social operam uma espécie de desaceleração do tempo. E a duração prolongada dos planos mostra o tecido da vida cotidiana na sua integralidade, e nós somos mobilizados a refletir sobre as tensões que movem essa personagem, tentando compreender a ambiguidade do que está sendo vivido diante de nós por meio de uma resistência silenciosa – a gente sabe muito pouco sobre ela. Todos esses registros prosaicos são tratados com uma enorme sensibilidade lírica, que vai do gesto individual da recusa, passa por uma experiência sensorial diante da natureza e chega a uma situação coletiva, em que a escolha entre dois mundos demanda uma ação, ou seja, um ato de vontade subjetiva que reforça o seu protagonismo. A relação contemplativa com a paisagem, a atenção aos elementos da natureza e a revelação do desejo são elementos que encontram ecos em poetas persas modernos como Forough Farrokhzad e Sohrab Sepehri, para quem a natureza, em geral, aparece como espaço de percepção, liberdade e resistência ao mundo social. Ou seja, a natureza é mais do que um espaço de representação ou um simples um cenário: ela se torna uma forma de expressar estados interiores, tensões existenciais e modos de relação com o mundo. E talvez seja justamente aí que este filme encontra o cinema de Sohrab Shahid-Saless, que vai ser exibido na sessão seguinte. O solo selado praticamente não circulou em seu país de origem e nunca chegou a ser exibido publicamente no Irã. A Marva Nabili faz apenas mais um longa-metragem depois, chamado Nightsongs, em 1984, que retrata a experiência de uma imigrante chinesa e sua família em Chinatown, Nova York. Apesar da censura e das restrições impostas aos artistas, antes e depois da Revolução, o Irã produziu algumas das obras mais originais do cinema mundial – isso é muito significativo. E O solo selado, da Marva Nabili, é um índice de primeira ordem dessa cinematografia na qual vale a pena se aprofundar. E, para finalizar, eu gostaria de dedicar a minha fala à memória de Marjane Satrapi, que ficou mais conhecida pela obra Persépolis e que faleceu no dia 4 deste mês. Boa sessão para vocês. |
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